sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Um povo muito fofinho



Os portugueses são um povo muito fofinho. Quem ouviu alguns dos seus exemplares, nos Foruns do dia, só pode tirar essa conclusão.
A vibração patriótica com que chamavam malandros aos funcionários públicos e os acusavam  de estar a dar cabo do país por ousarem fazer greve, merecem ombrear com os bravos antepassados que lutaram contra Castela e malbarataram o inimigo numa tarde de Agosto, que ficou para a História como o maior exemplo de bravura tuga.
No dia em que ficamos a saber que os multimilionários portugueses  enriqueceram 10,8% com a crise ( muito acima da média europeia) os tugas vomitam a suas frustrações, ódios e invejas, em cima dos funcionários públicos!
Animado com este fervor patriótico dos tugas, Hélder Rosalino  aproveitou para anunciar que o governo está a preparar mais cortes nos salários dos funcionários públicos, devendo o diploma estar pronto até final do mês.
Enquanto isto, Cavaco deve ter mandado a Maria agradecer a Nossa Senhora ter contribuído para a domesticação dos tugas, com aquela ideia genial de aterrar numa azinheira. (Confesso que esta  da "ideia  genial de aterrar numa azinheira" não é minha. Ouvi-a há uns bons anos da senhora minha Mãe, fervorosa católica e votante no partido das setinhas, como lhe aconselhava o confessor, enquanto se locupletava com generosos donativos para a sua obra.)
Passos, por sua vez, deve ter aproveitado o dia para almoçar com Marilú e delinear mais umas medidas que dobrem a canalha.
Pela tarde, os tugas continuaram a garantir- agora nos fouruns televisivos- que só  há muito desemprego, porque os portugueses são uns mandriões e preferem o subsídio de desemprego a trabalhar. Devo dizer que a maioria dos indignados tugas  anti funcionários públicospertenciam ao sexo feminino. Duas confessaram receber uma pequena reforma, apesar de nunca terem feito descontos na vida, mas ninguém as interpelou sobre o assunto. Foi pena.
Como foi pena ter visto, num dos canais, o pio a ser cortado cerce a quem defendeu com mais vivacidade os grevistas e mimoseou os governantes e o paralítico de Belém com alguns epítetos menos fofinhos.
Estamos bem servidos. Temos um povo estóico que defende a política do nosso governo com unhas e dentes e ataca de forma veemente os traidores dos funcionários públicos que estão a arruinar o país.
Governo e povo fofinho merecem-se. Nasceram mesmo um para o outro. São ambos invejosos, mesquinhos e vingativos.
Os que teimam em defender os seus direitos é que deviam ser deportados. São perigosos estalinistas que não hesitariam em meter este povo fofinho de analfabetos em campos de correcção onde aprendessem o princípio mais básico da cidadania: a defesa dos seus direitos.
Eu não gosto do povo fofinho. Nem deste governo. Nem de tugas. Mas, como dizia Hanna Arendt, eu não tenho de gostar do meu povo. Devo é gostar dos amigos que me rodeiam, falem eles a língua que falarem. Não me revejo, pois, nos elogios ao povo corajoso que tem resistido com estoicismo às medidas de austeridade. Não pertenço a esse grupo. O meu povo são os meus amigos e medimos estoicismo e coragem por outra bitola.

7 comentários:

  1. Nojo! Povo de cegos e estúpidos! Cambada de mongos (como diziam os meus alunos...) Por isso "aguentámos" 48 anos de ditadura e 300 de "santa" Inquisição!

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  2. Dividir para reinar, é um princípio mesquinho que tem pleno efeito em gente mesquinha, invejosa e ignorante.

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  3. Manter o povo carneiro
    Rende muito dinheiro

    (ainda um dia o hei-de ouvir falar sobre os que lutam...)

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    1. Já teve oportunidade de ler mais de duas dúzias de posts em que falo deles, Rogério. Não sei é se os leu :-))))

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  4. Entrei na Função Pública ainda em tempo de ditadura e orgulho-me de ter servido o meu país com brio e competência.

    Já perguntei uma série de vezes a algumas das criaturas que seguem o exemplo de culpar os funcionários públicos dado há muitos anos pelo reformado algarvio se têm, como eu tenho, os impostos todos em dia e também já lhe dei a conhecer que tive muitos privilégios: um deles, foi o de levar papel higiénico de casa e outro foi o de andar sobre um soalho que ameaçava ruir a cada passo.

    Seria bom que quem escolhe o funcionalismo público como bode expiatório se lembrasse de que a burocracia e coisas afins vêm dos ministérios!

    Há pessoas incompetentes na função pública? Claro, como também existem no privado!!

    Irrita-me brutalmente este estúpido preconceito maniqueísta de que no público é tudo péssimo e no privado é tudo maravilhoso!!

    Boa noite, amigo.

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  5. Somos de facto muito mansos...até eu sou mansa...mas não alinho com eles, apesar de estar rodeada de carneiros.
    Fui funcionária pública , fui professora e na década de 80 , já leccionava 12ºano e as aulas eram depois das 19 horas. No liceu , não havia aquecimento , estava avariado , a caldeira e não havia verbas. Uma noite a temperatura era de 7º negativos . os carros tinham de ficar cobertos com jornais e trazer um frasco de álcool e um pano para tirar o gelo ...tudo aguentamos até chegar a casa quase em hipotermia...isto seria possível hoje ? M.A.A.

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  6. A esses que tanto odeiam os funcionários públicos eu pergunto: Que acontecerá ao país quando os funcionários públicos deixarem de ser chulados e puderem fazerem como os da privada, fugirem ao pagamento de impostos?

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