quarta-feira, 19 de março de 2008

Dia do Pai

Pai:
Hoje, só te quero dizer que tenho saudades das nossas passeatas, das férias em praias outrora desconhecidas, da maneira como me deslumbravas quando me explicavas o que devia guardar de cada lugar por onde passávamos, das conversas à mesa sobre História e Geografia, do teu ar zangado quando não estava sentado à mesa às oito em ponto, da dor que sentiste quando decidi partir.
Na altura, lembrei-te que também o avô deixara o seu país para vir para a Europa e que anos mais tarde foras tu a atravessar o Atlântico, em sentido inverso, em busca da terra do teu pai. Tentei convencer–te que estava na genética da nossa família renegar o solo onde nasceu e que, além disso, Portugal era demasiado pequeno e mesquinho para mim.
Respondeste que não haveria revolução nenhuma que mudasse as coisas em Portugal, porque o problema não estava nos governantes, mas sim nos governados.
Hoje, vejo que tinhas razão.
Talvez te alegre saber que, apesar de ter regressado, continuo a olhar para Portugal como um país mesquinho, onde campeia a inveja, o espírito de capelinha, a pequena intriga, a maledicência e o boato pérfido. “Isto” é um país de anões com a arrogância de Adamastores!
Regressei cedo demais, mas agora talvez seja tarde para voltar a partir. Partiste cedo demais e deixáste-me muita coisa para descobrir.
Ah... só mais uma coisa. Quando daqui a uns dias voltar a Buenos Aires, vou ao Tortoni. Ouvirei contigo “La Cumparsita" e pedirei à orquestra que toque o tango que me cantavas quando estava apaixonado:

“Dejate de locuras, muchacho,
pensá bien lo que haces.
Me han dicho que te han visto borracho
Llorando por una mujer...
Como el dolor te ha cambiado,
que ya no sos el de ayer!
Volvé pa' la milonga,
que un fuelle rezonga
como llamándote.

Al compás de un tango

la habrás de olvidar,
con una pebeta
que sepa bailar,
una piba buena
que, al mirar tus ojos,
comprenda la pena
de tu corazón.

Al compás de un tango

habrás de encontrara
esa mujercita
sincera y leal,
y veras, un día,
lleno de alegría
a la que lloraste
ni recordarás.

Dejate de locuras, muchacho,

tenés que reaccionar.
El hombre debe ser de quebracho
pa' resistir el mal.
Si esa mujer te ha hecho daño
perderla ha sido mejor.
Volvé pa' la milonga,
que un fuelle rezonga,
pa' darte más valor.

Al compás de un tango

la habrás de olvidar,
con una pebeta
que sepa bailar,
una piba buena
que, al mirar tus ojos,
comprenda la pena
de tu corazón.

Al compás de un tango

habrás de encontrara esa mujercitas
incera y leal,
y veras, un día,
lleno de alegría
a la que lloraste
ni recordarás.”
Letra:Oscar Rubens

8 comentários:

  1. Bonita homenagem.

    Onde estiver, vai gostar de ler.

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  2. Quando escreves com a beleza que tens dentro de ti, fico com pele de galinha.
    Não deixes sair cá para fora a parte intolerante que também tens, qando se trata de política. Escreve cróncas com sentimento e deixa se o teu amigo Papalagui a ficar com o odioso da intolerância
    Beijocas
    Sandra

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  3. E cá estou eu, após 5 anos, a escrever exactamente o mesmo: linda homenagem.

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  4. Um texto lindo de uma beleza que emociona, mas concordo com a anónima Sandra quando fala na intolerância que tens dentro de ti e ensombra essa beleza que poderia ser total...quando falas de política e não só! Eu sei, ninguém é perfeito...

    "Ouvirei contigo “La Cumparsita" e pedirei à orquestra que toque o tango que me cantavas quando estava apaixonado:

    “Dejate de locuras, muchacho,
    pensá bien lo que haces.
    Me han dicho que te han visto borracho
    Llorando por una mujer..."

    Esteja onde estiver o teu Pai vai adorar isto, ainda que lhe repitas sempre o mesmo, ano após ano.

    Janita.

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  5. Concordo com a Sandra e com a Janita quando dizem que o Carlos é intolerante, quando se trata de política, especialmente, quando escreve sobre a minha amiga Angie.

    Por outro lado, as picadas de escorpião, são o sal e a pimenta das suas crónicas políticas, Carlos.
    Gosto muito de as ler, mesmo quando dou pinotes na cadeira ao ler a sua opinião sobre a minha querida Alemanha e a sua líder.

    Prefiro dar pinotes do que chorar como uma Madalena arrependida, sempre que o Carlos escreve crónicas como esta.
    Uma mulher forte não chora, mas algumas das suas crónicas até me deixam débil.

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  6. Não queria repetir o que já disse num outro comentário, quando li esta crónica pela primeira vez, mas o que o seu pai pensava é o que eu, infelizmente, continuo a pensar:


    "... que não haveria revolução nenhuma que mudasse as coisas em Portugal, porque o problema não estava nos governantes, mas sim nos governados."

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  7. Bonita homenagem sem dúvida!
    Concordo com o seu pai...
    xx

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