segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Lobo Antunes e as lágrimas amargas de Petra W.

Conheci Petra W. nos anos 60, quando Ofir era um paraíso a Norte, procurado por famílias alemãs em busca de sossego. Crescemos em estios tão frios, como os de Mark Twain em S. Francisco, e cimentámos a amizade com as areias batidas pela nortada de Agosto, fustigando-nos os corpos em longas passeatas pela praia.
Não vejo Petra W. há um par de anos, mas continuamos a corresponder-nos assiduamente, via telefone ou e-mail. Apaixonada pela literatura portuguesa, elege o tema como mote da maioria dos mails que trocamos.
Há cerca de um mês telefonou-me, entusiasmada, com as “Cartas da Guerra” de Lobo Antunes que estivera a ler durante as férias. Conheço de há muito a sua paixão por Lobo Antunes ( cuja admiração partilhámos) e o seu desagrado em relação a Saramago ( que ainda não partilho, mas já faltou mais...).
Indignou-se com a atribuição do Prémio Nobel a Saramago e escreveu, na altura, um artigo ( creio que no Die Welt) insurgindo-se contra a escolha da Academia que na sua opinião ( que partilho...) deveria ter atribuído o Prémio a Lobo Antunes.
Ontem telefonou-me de Berlim, onde fora passar o fim de semana para assistir à leitura de excertos de obras de Lobo Antunes, durante o Festival de Literatura da capital alemã.
Disse-me, entusiasmada, que a sala o tinha aplaudido de pé e perguntou-me:
- Quando é que vocês conseguem convencer a Academia a atribuir-lhe o Nobel?
Não respondi, pois ela sabe tão bem como eu como se “cozem” os Prémios Nobel.
Falei-lhe da doença de Lobo Antunes e da fabulosa crónica que escrevera na “Visão” sobre o seu padecimento – que ela desconhecia. Pelo embargo da voz, quando me pediu que lhe enviasse a crónica, pude imaginar-lhe os olhos azuis a humedecerem-se.
Quando desligámos, procurei nos jornais de fim de semana uma notícia sobre o assunto. Hoje repeti o exercício, sem êxito. Rondei alguns blogs na procura de opiniões...mas nada! Não fosse a generosidade de Petra, ficaria sem saber – pelo menos durante mais alguns dias- mais este sucesso de Lobo Antunes além-fronteiras.
Não me espanta este silêncio envergonhado da imprensa diária portuguesa. Custa-me mais engolir que nenhum canal de televisão lhe tenha feito referência nos serviços informativos da televisão. Sei bem que Lobo Antunes não bate records no triatlo, não ganha medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos, nem é figura grada do meio futebolístico, capaz de abrir telejornais. Mas que diabo... não seria normal fazer uma referência a um escritor português aplaudido de pé num país estrangeiro? Ter-me-iam evitado, ao menos, a humilhação de ter de dizer a uma amiga alemã, que desconhecia que Lobo Antunes estivera na Alemanha...

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