quinta-feira, 25 de maio de 2017

Almas gémeas?



Adivinhe quem disse esta frase:
“ A euforia não se justifica. Não alinhamos no entusiasmo”

Passos Coelho, ex-primeiro ministro e líder do PSD? 
João Ferreira, eurodeputado do PCP e candidato à CML?
Nenhum deles?
Ambos?

Se respondeu “ambos” acertou. A diferença está no timing
Passos Coelho proferiu-a no Verão passado quando se começava a perceber uma ténue recuperação da economia. Ressabiado,teimoso e incrédulo,  anunciou aos portugueses a chegada do Diabo no Outono.
João Ferreira  disse-a ontem em entrevista ao i, depois de a comissão europeia ter anunciado a saída de Portugal do procedimento por défice excessivo. À falta de diabo, porque a Fé do PCP tem outros desígnios, João Ferreira não ameaça com  o demo, mas sim com  a justa luta dos trabalhadores se o governo não desbaratar, em dois anos, o que tanto custou a construir.
É óbvio que não há razões para euforias e o próprio António Costa fez questão de o salientar, mas esgrimir os mesmos argumentos de Passos Coelho, numa altura em que todos nos devemos congratular, é um insulto a todos os trabalhadores que passaram sacrifícios imensos durante o governo dos pafiosos.
Eles não merecem ser confrontados com esta coincidência de discursos que, por vezes, nos leva a pensar se PSD e PCP não serão almas gémeas.
AVISO: Já muitas vezes saí em defesa do PCP, por isso, não  me venham dizer que sou anti comunista, por favor. Tenho é este terrível defeito de ter memória. 

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Memórias em vinil (CXLI)

Só quando fui para os EUA conheci esta banda familiar que à época tinha enorme sucesso.
Não terão tido idêntico sucesso em Portuga, mas decidi incluí-los nestas memórias, porque a coreografia deste "Neither One of us (wants to be the first to say goodbye)" é divertidíssima e imperdível.
Gladyys Knight é considerada nos EUA uma das mais emblemáticas vozes do soul. Teve uma carreira a solo com grande destaque e teve entusiasmantes duetos com BB KING ou Etta James. Mas é uma interpretação a solo, no Chile, que vos deixo esta noite.  (...) Try to remember
Boa noite!

Vem aí o fim do mundo!



Depois de ter criticado de forma vil e soez o governo de António Costa, acusando-o de estar a desbaratar o bom trabalho feito pelo governo Passos/Portas;
Depois de ter garantido que Portugal não escaparia a um novo resgate;
Depois de ter mandado o holandês presidente do Eurogrupo afirmar numa entrevista a um jornal alemão que os portugueses são uns malandros que  gastam o dinheiro todo em p.... e vinho.
Depois de tudo isto, o ignominioso fascista  Schaueble,  ministro das finanças do país dos "milagres económicos" foi ao ECOFIN e comparou Mário Centeno a Cristiano Ronaldo
Ver  um alemão arrogante e fascista dar o braço a torcer e admitir que um reles tuga afinal tinha razão, é caso para temer que venha aí o fim do mundo. Tivesse esta comparação  sido feita no dia 13 de Maio e toda a gente teria falado em milagre. Proferida hoje, o significado é diferente e tem dois destinatários. A nível interno é uma mensagem aos eleitores alemães. 
" Não vale a pena bater mais no governo português, porque os tipos são teimosos, têm fibra e, o pior de tudo é que tinham razão. Afinal havia mesmo alternativa. Será que o Centeno descobriu a fórmula da poção mágica dos irredutíveis gauleses e a aplicou às finanças?"
A nível externo foi um recado a Passos Coelho e Marilú:
" Lamento, mas não contem mais com o meu colinho. Perante as evidências, a única coisa que vos posso dizer é que mudem de táctica e reconheçam que o Centeno é um grande ministro das finanças".

A globalização do medo

Pintura de Ljuba Adanja (2002)


 Será o século XXI o século do medo?  Poderá estar o medo a ser utilizado para nos restringirem a liberdade, diminuir os direitos?  Será o medo capaz de  transformar  as democracias tradicionais em sociedades esclavagistas legitimadas pelo voto popular?
Uma retrospectiva dos 12 primeiros anos deste século justifica todas as interrogações.
Tudo começou em 2001 com o ataque às Torres Gémeas. Desde esse dia Bush bramiu  o papão do terrorismo e aumentaram as medidas securitárias.
 Viajar de avião passou a ser um tormento porque os aeroportos,  além de nos reterem muito para lá do que seria normal  numa época em que todos andam obcecados  com o tempo, se transformaram em  espiões dos nossos corpos e dos nossos passos.
Em terra, a Al Qaeda  passou  a estar  presente em toda a parte, qualquer sítio poderia ser alvo  dos atentados suicidas dos homens de Bin Laden. Os atentados de 11 de Março em Madrid e 7 de Julho em Londres fizeram com que o medo alastrasse e, quando parecia que as coisas poderiam acalmar, uma ameaça de pandemia  provocada por um vírus da gripe encontrado no México, deixou os cidadãos de todo o mundo em pânico.
 A gripe  A não fez mais vítimas do que uma gripe normal, mas venderam-se  milhões de  vacinas. Os beneficiários dessa  histeria colectiva, foram os laboratórios. Os cidadãos encontraram mais um motivo para o pânico nesta sociedade higienista que, curiosamente, é uma das mais letais da História.
Bin Laden, o inimigo número 1, apesar de não ser visto em público,  tinha um rosto. O vírus da gripe A não, mas era reproduzido na imprensa e nas televisões em fotogramas acompanhados de complicados esquemas analisados por especialistas, que explicavam a forma de reprodução do inimigo.
Desde 2007 – e mais acentuadamente desde 2009- um novo inimigo começou a ameaçar  o mundo, particularmente a parte ocidental do hemisfério Norte. Ninguém lhe viu o rosto, não há especialistas nas televisões  a explicarem com esquemas complicados como ele ataca, mas sabemos o seu nome: MERCADOS .
 A utilização do plural   indicia que, desta vez, o mundo está a ser atacado por um inimigo invisível que se reproduz com grande facilidade, podendo  as suas células mãe ser localizadas em Wall Street, na City, quiçá em Singapura, e as ramificações em paraísos fiscais que dão pelo nome de off-shores.  Sabido é que o vírus dos mercados ataca nas Bolsas e nos negócios ilícitos,24 horas por dia, mas ninguém o consegue apanhar. Ou melhor: não sabemos, ainda, se alguém estará interessado em apanhá-lo!
Os especialistas  da área económica e financeira desdobram-se em análises complexas, a maioria diz que a melhor forma de o extirpar é dar-lhe vitaminas de crescimento, mas a direita  não está  para aí virada e contrapõe com vitaminas de austeridade, cuja aplicação massiva definha as vítimas. Quanto aos mercados, estão cada vez mais gordos, mas ninguém parece interessado em obrigá-los a uma cura de emagrecimento.

O medo provocado por esse ser misógeno que é a crise, criada pelos mercados em reputados laboratórios financeiros, começou a ser retratado no cinema.  O primeiro filme – que acabou de estrear em Lisboa- tem por título “Procurem Abrigo”  e analisa a crise financeira a partir da visão de um paranóico. Em Cannes, Brad Pitt acaba de apresentar outro filme que aborda a mesma temática. Sob a capa de filme de gangsters, “ Killing them softly” é, ao que dizem os críticos, uma parábola sobre a crise e a incapacidade de defesa perante um criminoso que ataca à distância.
Se não for através da política e da acção cívica, que seja ao menos através do cinema que os cidadãos se consciencializem que podem fazer algo para combater o inimigo sem rosto que nos prometeu uma globalização capaz de tornar o mundo mais justo, mas nos deu apenas o aumento da miséria e das desigualdades. Porque nós deixámos que assim fosse!
Já não há tempo para termos medo! A hora é de agir.

Texto publicado a 24 de Maio de 2012
( Desde então,  os ataques terroristas multiplicaram-se: Só para falar na Europa, recordo Paris (Charlie Hebdo e Bataclan), Nice, Berlim, Istambul, Londres ou mais recentemente Manchester. O medo tornou-se mais global e mais presente nas nossas vidas. Uma boa razão para o recordar 5 anos depois )


terça-feira, 23 de maio de 2017

Memórias em vinil (CXL)

 O sucesso dos ABBA que escolhi para esta noite tem muito a ver com o post desta manhã. 
Tenham uma boa noite, com RICOS sonhos.

Leva lá a bicicleta, Pedro!




Marcelo Rebelo de Sousa percebeu, finalmente, que Passos Coelho estava a precisar de colinho.
 No dia em que Bruxelas anunciou a saída de Portugal do procedimento por défice excessivo, deu os parabéns ao governo e a Passos Coelho pelo sucesso alcançado. 
A pedagogia da intervenção de MRS fez-me lembrar a do tipo que, já farto da choraminguice e lamentações do amigo, por ser incompreendido por toda a gente e ninguém lhe dar razão nem reconhecer os seus méritos, um dia desabafa:
- Está bem, tens toda a razão, leva lá a bicicleta!
Ao ouvir as palavras de Marcelo, Passos Coelho abriu a boca de orelha a orelha, num sorriso que já não se lhe  via há muito.
Caso para dizer:
-   Leva lá a bicicleta Pedro, mas tem cuidado. Não te estampes.

Gato escondido...



Os bancos portugueses ficaram  escaldados com os incumprimentos do crédito à habitação.  Agora, que a recuperação económica  é  visível e os portugueses parecem querer voltar a endividar-se como se não houvesse amanhã, é natural  e saudável que  não queiram cometer o mesmo erro de anos anteriores e se tornem mais exigentes e cautelosos na concessão de crédito.
Alguns bancos estrangeiros viram na prudência dos bancos portugueses uma oportunidade de negócio e decidiram entrar nesse apetecível mercado, outrora "reservado" aos bancos nacionais .
É óbvio que esses bancos não concedem créditos a quem queira comprar um T0 na Reboleira. Os clientes que lhes interessam são os que têm mais olhos que barriga e pretendem empréstimos para adquirir casas  em locais considerados de alta rentabilidade.
É que os bancos olham para estes clientes como potenciais incumpridores e o aliciante de poderem vir a ficar com as casas e (re)vendê-las por um preço interessante a clientes estrangeiros que pretendam investir em imobiliário em Portugal é visto como uma boa oportunidade de negócio.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Memórias em vinil (CXXXIX)

Começo a semana como terminei a última: com um dueto. Muito especial. Diria mesmo que "Unforgettable"
Boa noite e votos de uma excelente semana.

A II Revolução Francesa En Marche?


Ainda é muito cedo para prever o futuro  da  França de Macron, mas há uma coisa que parece inquestionável: a aceitação do seu governo a nível interno está em grande parte dependente da relação que estabelecer com Merkel.
 Nas vésperas da segunda volta das presidenciais, Marine Le Pen disse  num comício: “a França será sempre governada por uma mulher. Ou por mim, ou por Merkel".
Face ao comportamento dos dois últimos presidentes franceses, Marine Le Pen tem razão. Sarkozy e Hollande  desbarataram a popularidade granjeada antes das eleições, por se terem deixado dominar por Merkel. Sendo quase certo que Merkel ganhará as eleições de Setembro e que a relação com Macron parece ser bastante empática, se o jovem presidente francês quiser sobreviver, tem de mostrar aos franceses que Le Pen estava enganada. Para isso não pode cometer os mesmos erros dos antecessores.
  A nível interno pode   dizer-se que as escolhas de Macron para o  governo,  se não dinamitaram os dois principais partidos, debilitaram-nos fortemente. As escolhas foram cirúrgicas e provocaram fortes rombos  nas hostes republicanas e soialistas
Muitos analistas prevêem  a possibilidade de o partido fundado à pressa por  Macron poder ter a maioria absoluta nas legislativas de Junho e dar-se ao luxo de prescindir do apoio dos partidos tradicionais. Neste cenário, a pedra na engrenagem será uma extrema esquerda mais buliçosa e com mais forte apoio popular.
A confirmar-se esta previsão, será o fim da V República e uma  revolução  programática  com forte influência no sistema  partidário francês, cujo exemplo  poderá contagiar outras geografias europeias. 
Se Macron não conseguir eleger a maioria dos deputados, mas estabelecer com sucesso acordos à direita e à esquerda que permitam estabilidade, assistiremos então a uma revolução mais “douce” e menos programática, mas ainda com ingredientes inovadores suficientes para se expandir no espaço europeu.  
Seja qual for o cenário, não se pode esquecer a força dos sindicatos em França. Esse é um outro desafio à capacidade negocial de Macron.
Perdida a esperança de construir uma Europa solidária e  dado  como adquirido que o mercado de trabalho e o perfil da  empregabilidade  estão em profunda transformação, Macron terá de conseguir sensibilizar os sindicatos para essa nova realidade global. Mais do que discutir salários e regalias é importante estabelecer novas regras para o mercado de  emprego  que dignifiquem e valorizem o trabalho.
Sendo Macron um liberal, não se pode esperar que preconize medidas muito favoráveis aos trabalhadores, mas se conseguir um entendimento com os sindicatos que permita reduzir substancialmente a taxa de desemprego ( a redução do horário de trabalho e o aumento das férias poderá ser colocado na mesa das negociações) poderá amaciar a contestação nas ruas.
Macron tem dado provas de ser inteligente e sagaz. Quero acreditar que conseguirá levar a bom porto a revolução que preconiza e poderá influenciar o futuro não só dos franceses, mas também da Europa.
Não são muito claras as posições de Macron face à imigração e aos refugiados, mas não poderá deixar de interligar estes temas  com as questões laborais. E só terá sucesso, se apresentar propostas inovadoras.
Neste momento pode dizer-se que há uma revolução En Marche em França.  Se irá abortar ou ter sucesso, é impossível prever, mas uma coisa é certa. O falhanço do projecto Macron terá como consequência imediata a vitória de Marine Le Pen em 2022.

Esperemos que todos os intervenientes neste processo tenham em mente o risco de um falhanço. Inclusivamente actores externos, pois o que se passar em França nos próximos dois ou três anos, será determinante também para o futuro da Europa.

Impeachment? I don't believe!

Começa a espalhar-se a convicção de que, mais tarde ou mais cedo, será aberto um processo de impeachment para afastar Trump da Casa Branca.
Sinceramente, não acredito que tal venha a acontecer. Pelas mesmas razões que não acreditei quando se colocou a hipótese em relação a Nixon  e Bill Clinton. Poder-se-á dizer que o processo de impeachment contra Nixon só não avançou, porque ele se demitiu. É verdade, mas com Trump a  situação é diferente: os próprios democratas vêem com alguma relutância a concretização de um processo de impeachment, porque a concretizar-se  o lugar seria ocupado pelo vice-presidente Mike Pence.
Ora, por incrível que pareça, Pence é 10 vezes pior do que Trump. Além de Criacionista e homofóbico, xenófobo e acérrimo defensor da retirada de direitos cívicos aos homossexuais, Pence é a encarnação do macaco Adriano. As sua posições homofóbicas posicionam-no como um aliado de Putin  e da extrema direita europeia.
Mike Pence tem, pois os mesmos defeitos de Trump, mas é ainda menos inteligente e os interesses que o movem são ainda mais sinistros, podendo contribuir para um retrocesso civilizacional sem paralelo na sociedade americana.
Acresce que as eleições de 2018 poderão alterar a relação de forças no Senado e na Câmara de Representantes, dando maioria aos democratas, mas um processo de impeachment poderá ser-lhes prejudicial

domingo, 21 de maio de 2017

Those were the days (44)




Terminou hoje a 50ª edição do Rali de Portugal.
Confesso que a prova me passou ao lado mas hoje, quando ouvi anunciar  o nome do vencedor, recordei com alguma nostalgia a primeira edição, realizada em outubro de 1967.
Nas primeiras edições o Rali durava quase uma semana, começava  em 10 ou 12 cidades europeias até os concorrentes se juntarem num ponto comum. Era então que o Rali começava “a doer”. As classificativas começavam  no norte e  terminavam na louca noite de Sintra, depois de várias etapas que chegavam a ter 1000 quilómetros!
Eu não era grande apreciador do desporto automóvel, mas lembro-me  perfeitamente da loucura que foi aquela primeira edição.
Estava nas vésperas de me emancipar do colo familiar (viria nesse mesmo ano para Lisboa mas, por aqueles dias, estava a aguardar a transferência de Coimbra, onde inicialmente me inscrevera por pressão dos meus pais, que me queriam mais perto de casa) e o Rali de Portugal foi uma prova de fogo. Com um grupo de amigos fanáticos por automóveis, acompanhei a prova do primeiro ao último minuto. Quase não íamos à cama, comíamos mal e quase sempre em restaurantes apinhados de adeptos absolutamente fanáticos.
Nos dois anos seguintes  apenas fui à noite de Sintra, mas o entusiasmo diminuiu consideravelmente.
Lembro-me, no entanto, que o Rali terminava na madrugada de domingo nas arcadas do Estoril ( onde actualmente tem início o Rali de Portugal Histórico) mas, naquela época, estava longe de imaginar que 50 anos depois haveria de morar nessas arcadas.

Dia Bilhete Postal (54)


Mais um postal  enviado pela minha irmã em 1958

sábado, 20 de maio de 2017

Memórias em vinil (CXXXVIII)

Como prometido, as noites de sábado são sempre preenchidas com memórias bem românticas.
Esta semana trago-vos um dueto e uma canção inesquecíveis. Peabo Bryson e Roberta Flack  cantam " Tonight I celebrate My love".
Celebrem e aproveitem a noite o melhor possível.

"O Coelho Mau"



Na sequência do post anterior, recordo os leitores que ao contrário de outros anos, em 2017 não há nenhum filme português na Selecção Oficial de Cannes, mas serão apresentados três na Quinzena dos Realizadores e um na Semana da Critica.
Nesta paralela, será exibida a curta metragem “O  Coelho Mau”. 
O título é de meter medo ao susto e a sinopse adverte que "muitas vezes é preciso um intermediário para nos mostrar as coisas com clareza".  
Quanto à história, centra-se na relação conflituosa entre dois irmãos, uma mãe ausente e o seu amante. Felizmente não há referência a um pai  saudoso do fascismo.

Em Cannes com a Brites





Começou esta semana mais uma edição do Festival de Cinema de Cannes. 
Longe vão os tempos em que o  festival marcava o início de uma boa temporada em França. Terminado o festival seguia para o GP do Mónaco e, semanas mais tarde,  rumava a Paris para fazer a cobertura de Roland Garros.  Houve um ano em que cheguei a fazer uma “perninha” no Tour de France,  durante uns dias, para substituir um  camarada  sul americano que adoecera.
Já estava cansado de automóveis e de ténis, mas Cannes é ainda hoje  uma saudade. Gostaria de lá estar  este  ano. Não sendo possível, tenho  esperança de lá estar no próximo,  por minha conta e risco.
Por agora limito-me a recordar um dos apontamentos que a Brites  escreveu em 2010, sobre a minha presença na Meca do cinema europeu.
Aqui vai:
Cannes, 20 de Maio de 2010
Olá ! 

Aqui estou eu na Croisette, esvoaçando de um lado para o outro, a ver as celebridades que por cá vão passando.
Nunca vi tanto jet set junto e ao vivo! Depois destes dias aqui em Cannes, ler as revistas não vai ser a mesma coisa. Espero aparecer em algumas, porque tirei fotografias com tudo quanto é finaço… Ainda há bocado estive quase a poisar nos braços do Javier Bardem, mas um segurança veio furioso em direcção a mim, com tanta energia, que me pisguei num bater de asas.
O Carlos está a fazer uma entrevista à Penélope Cruz. Nem imaginam como o coração dele bate desde ontem de manhã. Até parece que nunca veio a Cannes! Hoje de manhã, enquanto eu tomava o pequeno almoço, vi-o a apinocar-se. Parecia que ia para um encontro amoroso. Pôs tanto perfume, que creio que a pobre da Penélope vai fugir assustada quando ele se aproximar dela. Coitado, não se enxerga. Quanto mais velho, mais trolaró fica, mas parece que isso acontece com todos os homens e é por isso que alguns, quando as mulheres chegam aos 50 anos, a trocam por duas de 25.
Parece que há dias houve aqui um temporal tão grande, que fez “O Pesadelo em Elm Street” parecer um musical da Broadway, mas acho isto muito bonito, apesar de uma cotovia espanhola que encontrei ontem à tarde me ter dito que só vale a pena cá vir durante o Festival. Sabem o que é que a marada me disse? Que fora desta época Cannes parece a Quarteira! Deve ser parva…
Voltando ao Festival, devo dizer-vos que nos bastidores se discute mais política do que cinema. Desde um ministro italiano a tentar proibir a exibição de um filme, até à greve de fome que o realizador iraniano Jafar Panahi decidiu fazer depois de ter sido preso em Teerão, tudo é motivo de conversa . O Godard também resolveu meter a colherada. Depois de ter defendido que a Suiça devia desaparecer como País, deixou os jornalistas pendurados e não apareceu na sala de imprensa, após a exibição do seu filme “Socialism”. Mas como é que ele podia aparecer se decidiu não vir a Cannes? Mandou um fax ( ele tem 79 anos, se calhar ainda não sabe que existem e-mails e telemóveis) a dizer que “problemas do tipo grego” o impediam de estar presente porque, embora para estar em Cannes estivesse disposto a ir até à morte, não queria dar nem um passo mais para além disso. Não perde o humor este magano!
Eu consegui ver o filme escondida nas penas do chapéu de uma velhota muito pintada, mas cheia de glamour, que deve ter entrado de penetra . Gostei muito. Aqueles dois papagaios de cabeleira vermelha que entram no filme, são umas brasas, só vos digo! As pessoas riram-se muito durante o filme, mas eu não consegui perceber onde estava a graça. Até me pareceu um filme bastante triste, devo confessar, porque também entravam dois gatos e eu estive sempre à espera do momento em que eles iam filar os papagaios. Quando contei isto ao Carlos ele riu-se e disse que eu não tinha percebido nada do filme, mas eu não liguei, porque ele tem a mania que só ele é que é inteligente.
Só para terminar, quero dizer-vos que ouvi umas conversas sobre o filme do Manoel Oliveira que foi aplaudido de pé, mas quem deixou a população masculina cheia de torcicolos foi a nossa ministra da cultura. No restaurante do Majestic, ouvi dizer que este ano não passou por lá ninguém com tanto glamour como Gabriela Canavilhas. Com uma ministra assim, ninguém de perfeito juízo se atreve a propor o fim do ministério da cultura!
Agora tenho de me ir embora, porque a Internet está cara e já gastei parte dos créditos do Carlos. Espero que ele não repare, senão lá me vai ameaçar mais uma vez, de que um dia acabo no tacho. Mas quem é que gosta de carne de cotovia? Bem , vou-me pirar, porque vem ali um laverca em voo picado e eu hoje não estou para essas coisas. Passem bem, até ao meu regresso, e não estranhem se o Carlos não vos visitar nos próximos dias, porque ele anda muito entusiasmado com o jet set. Ontem garantia que tinha visto a Angelina Jolie. Só quando o vi a ler “O Monge Negro” do Tchekov é que percebi que estava com alucinações.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Memórias em vinil (CXXXVII)


Estamos a chegar ao fim de semana e o amor anda no ar. Em jeito de aquecimento, aqui fica Sinead O' Connor.
Tenham uma boa noite e um excelente fim de semana.
E obrigado por continuarem desse lado.

Obrigado, RTP!

Hoje dei por mim a pensar que se os Pafiosos que venderam o país ao desbarato tivessem  privatizado a RTP, como era vontade de Relvas e Passos Coelho,  não teríamos  festejado a vitória no Eurofestival.
Senti necessidade de dizer isto, porque a SIC tentou passar mensagem de que o facto de Salvador Sobral ter  participado nos "Ídolos" foi determinante para o seu sucesso.
Essa tentativa de colagem é injusta para a RTP , mas sobretudo para o Salvador.
Antes do Festival da Canção ( o próprio o disse em entrevista)  Salvador continuava a ser um desconhecido com imensas dificuldades para divulgar a sua música e o seu trabalho “Excuse Me”, porque a maioria dos “empresários(?) musicais” dizia-lhe que este ano já tinham as datas todas ocupadas.  Depois da vitória no Festival da Canção da RTP as coisas mudaram e ainda mais mudarão após a vitória no Eurofestival. Não me consta que a SIC tenha feito alguma coisa para lhe arranjar contratos ou dar protagonismo.
Felizmente os pafiosos não conseguiram os seus intentos e a RTP continua pública e de boa saúde. É na RTP 2 que podemos ver o noticiário mais equilibrado das televisões portuguesas e algumas das melhores séries que passam em Portugal, fora daquela caixa de enlatados que são ( na generalidade) as séries americanas.
A RTP 1 não tem telenovelas, mas tem séries portuguesas de grande qualidade que nos contam a nossa História  e nos levam a locais do país que desconhecemos.  Na RTP são exibidas  séries históricas ( como Versailles, por exemplo) de grande qualidade e excelentes documentários.
A RTP 1  transmite em directo os eventos desportivos de maior interesse,  exibe concursos de cultura geral ( adaptados à média cognitiva dos portugueses – por isso pouco exigentes é verdade, mas sempre se vai recordando alguma coisa esquecida)  e tem um talk show diário que se mantém no ar há vários anos ( 5 Para a Meia Noite).
A RTP oferece-nos uma possibilidade de escolha muito variada nos seus diferentes canais, mas ainda nos proporciona a recordação de grandes séries na RTP Memória.
Era altura de os portugueses olharem para a RTP com outros olhos e deixarem de lhe colar o anátema de “canal público”. Porque, no caso específico da RTP, serviço público é sinónimo de qualidade, de inteligência e de fuga à massificação programada onde se afogam as privadas, numa luta que tem por único objectivo tornar-nos mais acríticos e acéfalos. 
 As televisões privadas divertem as pessoas ( não percebo como é que noticiários onde se fala quase exclusivamente de crimes, ou   Big Brothers, Casas dos Segredos, telenovelas e similares conseguem fazer as pessoas felizes, mas o problema deve ser meu e de uns quantos que continuam a esforçar-se por fugir à formatação que os canais privados nos impõem) a televisão pública tenta informá-las e ajudá-las a ser melhores pessoas ( embora seja obrigado a reconhecer que por vezes nos apresenta programas de indigência confrangedora, como O Preço Certo).
Estarei eternamente grato à RTP e aos excelentes profissionais que lá trabalham e agradeço-lhe ter apostado em força este ano no Festival da Canção. 
No próximo ano a RTP vai organizar o Eurofestival. Vai ser um espectáculo caro, que talvez não justifique o investimento. A avaliar pelos anos anteriores  as televisões que organizam o Eurofestival dizem que é difícil garantir o retorno do investimento. Há, porém,  um prestígio a defender e mau seria se  a RTP abdicasse de organizar o Eurofestival em 2018. 
Peço por isso aos detractores do serviço público de televisão que se abstenham de começar, desde já, a criticar o desperdício de dinheiro que será a organização do Eurofestival. E a todos os outros que, antes de criticarem,  se lembrem  dos momentos felizes que Salvador e Luísa Sobral lhes proporcionaram. Eu sei que há gente que não gostou da canção. Muitas porque detestam o festival ( eu sou um deles, mas já fui fã), outros apenas por mera snobeira. São uns tristes, coitados. Tenho pena deles.  Ficava-lhes bem, no entanto, reconhecer o trabalho da RTP. Que projectou a música portuguesa lá fora- abrindo portas que para muitos estariam eternamente fechadas- mas acima de tudo deixou muita gente feliz.

Aprendeste a lição, Rui?



Considero Rui Moreira um homem honesto e as notícias do "Público" pondo em causa a sua  honorabilidade não me  fazem mudar de opinião. Pelo contrário. Apenas confirmam o que aqui escrevi.
Rui Moreira já terá percebido que foi enganado por aqueles que o convenceram a dar um chuto no PS.
Talvez  já esteja  arrependido e tenha compreendido que  o objectivo dos seus "apoiantes independentes " era ressuscitar o PSD que estava morto  e sem candidato credível. Uma vez afastado o PS,  os laranjas vêem uma possibilidade de regressar ao governo da câmara do Porto, ao colo de Rui Moreira.
A política tem destas coisas Rui. Ser independente não é mesmo nada fácil. Principalmente quando se é naïf e se confia nos independentes  que têm o seu próprio programa e  objectivos escondidos na manga.